Racionais Mc´s

“O que quer que eu faça é por nós, por amor. Não entende o que eu sou, não entende o que eu faço, não entende a dor e as lagrimas do palhaço…”

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Insônia que me tens de regresso.

Odeio quando isso acontece, fui deitar as quatro da manhã, sem sono nenhum, rodei na cama até agora, 8 da manhã, não parava de pensar em posts pro blog e agora que sento no notebook, cadê ideia?

 
Com certeza o que eu mais preciso corrigir no tdah é eu controlar minha mente e não o contrário. As vezes sinto que sou um passageiro no meu próprio corpo, é como se alguém tomasse algumas decisões independente da minha vontade e me sinto péssimo com isso. Hoje por exemplo eu queria dormir, minha cabeça não deixou e ficou me azucrinando por longas quatro horas com um pensamento fixo em escrever, agora que eu levantei pra fazer isso e sento no notebook ela me simplesmente me trolla sumindo com tudo o que eu estava pensando. Ok que eu vacilei, porque levantei, liguei a tv, fiquei olhando facebook e foi o suficiente pra dispersar, mas como quem manda nesta “pôra” sou eu, cá estou enrolando e esperando voltar o fio da meada.
 
Eu quero escrever sobre tanta coisa, que isso acaba me paralisando um pouco e é essa paralisia que mais me atrapalha em tudo na minha vida, minha cabeça lota, fica parecendo meu notebook com um quadrilhão de processos abertos até a hora que espana de tal forma que nem ctrl+alt+del resolve. Tenho uma teoria que seu pc geralmente vai ser como é sua cabeça, minha área de trabalho é uma zona, trocentas pastas que eu não uso, fotos que eu jogo na área de trabalho só pra enviar pra alguém e esqueço de deletar, igualzinho a organização do meu cérebro. Então se fosse pra dar alguma dica, da uma olhada em como você gerencia seu computador pessoal, a chance de estar fazendo a mesma coisa com a sua cabeça é muito grande.
 
As vezes parece que é legal viver essa vida meio melancólica, meio depressiva, (mais sobre depressão em um outro post) parece que as vezes o rótulo de eterna promessa é mais gostoso do que de realizar algo de fato. Nesse momento minha cabeça fervilha de ideias, ideia de negocio, livro, quadrinho, musica, cinema, estudar, mas tal qual meu notebook, a incapacidade de priorizar as tarefas faz tudo travar e ter que reiniciar, tal qual o notebook, acabo perdendo todos os trabalhos não salvos, o que geralmente é tudo. Parece que ter a ideia é muito, mas muito mais legal do que executar a ideia, com certeza acho que a gente precisa aprender a viver uma vida mais real. Embora nossa criatividade seja algo espetacular, as vezes a gente idealiza tanto uma coisa, que na hora de sair do plano das ideias e ganhar forma no mundo real, qualquer coisinha que diferencie do mundo de fantasia já nos desanima a continuar. Por isso que viver sendo a eterna promessa é legal, assim eu posso viver uma vida fantástica na minha cabeça, sem correr o risco de me frustrar com os empecilhos da vida real. 
 
Eu nunca consigo imaginar alguma coisa que não seja grandiosa e quando eu começo algo que dá indícios de não ser no mínimo espetacular, todo meu tesão vai por água abaixo, isso com certeza é meu pior defeito, sou igual meu pai, “correto no pensamento, falho na execução” 1. Prometi pra mim mesmo que não vou fazer isso no aqui, passei uma semana pensando em fazer esse blog, se faria de maneira anônima, layout, formato. Eram 30 segundos pensando na parte técnica e meia hora sendo entrevistado pelo Jô no fantástico mundo de Juan. Eu consigo muito conceber a ideia quase pronta, posts que dariam um livro, um milhão de acessos, mas não consigo suportar a rotina diária de fazer algo que alcance esse valor.
 
Vou firmar um compromisso com vocês aqui, de não abandonar o blog por nada, de escrever uma vez a cada quinze dias, mesmo que depois de um ano eu não esteja nem próximo de dar uma entrevista pro tio da esquina. 
 
Comecei o blog pensando em escrever sobre muitas das conclusões que eu cheguei e quem sabe ajudar alguém, mas no fim esse post serviu mais como um desabafo, escrevendo algumas coisas ficaram bem claras pra mim, as vezes escrever pode ser melhor que terapia. 
 
 
1. citação do seriado Californication, que será objeto de alguns posts. 

Convivência do TDAH

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#*#*# DISCLAIMER #*#*#

Meus textos são baseados na minha experiência e na observação, não estou dizendo que estou certo e fiquem tranquilos, podem me corrigir caso eu esteja falando algo muito errado.

Convivência, ai está algo que pode definir positiva ou negativamente a vida de um TDAH, as pessoas que nos cercam ao longo da vida podem ser determinantes pra se acentuar ou diminuir algumas das nossas características e pensando esses dias cheguei a conclusão que a tendência a comportamento anti social pode ser apenas uma resposta a um reforço negativo ao longo da infância.

Me dando como exemplo, sou tdah de pai e de mãe, como eu escrevi aqui minha infância teve muito da parte boa de tdah, meus pais tinham uma vida social intensa e eu cresci no meio de pessoas com uma cabeça mais aberta, eu tinha muita liberdade pra falar besteira, durante meus 10 primeiros anos eu recebi muito reforço positivo. Aos 12 anos eu me torneio atleta, praticar esporte é algo muito importante pelo aspecto físico, mas do ponto de vista social é um ambiente que favorece bastante quem tem o nosso perfil. Socialmente no ambiente esportivo se é muito mais aceito se você tem uma certa impulsividade, liderança, criatividade, características inerentes a nós, transtornados.

Isso me tornou um adulto muito confiante e com uma excelente habilidade social, como todo tdah eu tenho problemas em ambientes que sejam hostis as minhas características, pessoas com cabeça fechada, metódicas, sistemáticas são um desafio a minha maneira mais franca de ser, mas de uma forma geral, eu consigo me sair muito bem, assim como meus irmãos e alguns outros amigos potencialmente tdah´s que eu tenho.

Eu acho que esse ambiente hostil na infância acaba gerando muito reforço negativo o que deve comprometer muito a habilidade social do tdah na vida adulta, o que pode ser o motivo de se associar personalidade anti social ao transtorno.

Falando de maneira rápida sobre reforço, a grosso modo o reforço é a resposta que você da a cada comportamento. Um reforço negativo é quando um filho deixa o quarto bagunçado e toma uma puta bronca, ou fica de castigo ou em casos mais graves apanham. Já o reforço positivo é quando você elogia aquela vez que o filho arruma o quarto, ou da algum mimo.

Tdah´s são muito sensíveis a reforço, tanto negativo quanto positivo, sendo notável na minha experiência pessoal que o positivo tem um efeito muito mais satisfatório. Minha mãe foi a rainha do reforço negativo, era só ver um prato fora do lugar pra vir uma chuva de gritos e palavrões. O nome do blog é uma lembrança da minha infância, onde dizer a palavra “esqueci” era motivo pra um severo puxão de orelha. Intuitivamente, a gente pode achar que o cara tomou uma bronca, agora não vai fazer mais, mas o que aconteceu comigo e com meus irmãos é que a gente é muito desorganizado, eu só melhorei isso depois que sai de casa e passei a conviver com uma pessoa que pela personalidade dela, me elogia muito mais do que crítica. O resultado é que hoje eu lavo louça e embora ainda seja desorganizado, não passo perto da desorganização de outrora.

Imaginem um cenário onde o joãozinho é o terceiro filho de um casamento já um pouco desgastado por uma mãe que é tdah, ela luta contra o jeito dela de ser e tem dois filhos que não são tdah e são mais metódicos, como o pai. Esse terceiro filho começa a crescer e dar os problemas clássicos de um tdah, em uma família que é metódica, ele é o único que tem problemas na escola, dificuldade pra aprender, vive sendo repreendido, inclusive sendo comparado o tempo inteiro com os irmãos, ninguém tem paciência com ele e a mãe, que poderia ser a pessoa a ajudá-lo, por ver nele o comportamento que nela é indesejado, passa a hostilizar o filho. Pronto está feito o estrago de uma vida.

Vamos imaginar um cenário contrário, que é muito próximo ao meu, um dos pais é tdah, passa pro filho, mas ele é o primeiro filho, tudo é novidade, a mãe estimula o filho a ser questionador, estimula a curiosidade dele, essa criança vive recebendo reforço positivo, é comparada a outras crianças como exemplo a ser seguido, é cercada por pessoas mais flexíveis a novas ideias, conhece muitas pessoas durante a infância. Está pavimentado o caminho pra uma pessoa bem sucedida.

Se você é pai ou mãe, olhe com carinho pro seu filho, pense no reforço positivo, tente entender porque essa criança é diferente, tome cuidado pra não passar os sentimentos do casamento pra criança, crianças tdah´s tendem a ser altamente empáticas (empatia vale um post só pra falar sobre isso).

Se você já é um adulto, vale a reflexão de pensar em como você passou pela infância e identificar se parte do seu comportamento não é apenas uma resposta a algum reforço negativo na sua criação.

TDAH não é imperfeito

Essa frase é simples, mas precisamos aprender ela. Nós não somos imperfeitos, do mesmo jeito que não existe ninguém perfeito, e pode acreditar nisso, não existe, ninguém é tão fodido que não sirva pra nada. 

O mundo pode ser muito cruel com um TDAH, as pessoas apontam o dedo sem dó. É muito fácil mascaras um defeito apontando o defeito do outro e eu tenho certeza que isso acontece com a gente. Eu falei sobre isso nesse post, sobre como minha família, especialmente meu pai, era o bode expiatório, sendo que os outros dois irmãos dele eram/são uma sombra do homem que meu pai é.

No post sobre a música coisas que eu sei, tem um verso que fala que o medo mora perto das ideias loucas e o que eu acho que acontece muitas vezes com a gente é que nossas ideias acabam amedrontando as pessoas. A gente nasceu na época menos propensa a revolução, a classe média cresceu muito e essa é a faixa social que menos está disposta a arriscar, quando a gente da uma ideia muito fora do padrão, a tendência é sermos rechaçados na intensidade da mudança que propomos, 

Eu falei tudo isso pra chegar no seguinte ponto; algumas vezes as pessoas nos fazem sentir muito mal por sermos simplesmente diferentes e não ruins.

Falando um pouco de mim. Como já dito, sou filho de dois tdah´s, com mais dois irmãos transtornados também, tivemos uma infância sem a menor estrutura pra nos ensinar a viver no mundo como ele é hoje, não sei lidar com dinheiro e não sou responsável, somado a isso, tem aquela incômoda variação de humor, que por mais que eu consiga controlar no curto prazo (não acordo feliz e vou dormir com raiva), no médio e longo prazo é difícil me conter, o que dificulta um pouco minha vida. Tudo isso pra dizer que aos 33 anos me encontro sem uma profissão, com minha namorada ganhando bem mais que eu e praticamente sendo o provedor da relação. 

O padrão do mundo é o homem prover o material enquanto a mulher cuida do lar, qualquer coisa diferente disso é visto como errado. Algumas pessoas próximas fazem juízo de valor, ora achando que ela é trouxa, ora achando que eu sou mal caráter, sem ao menos procurar saber o que nos mantém juntos, com seus relacionamentos de aparência, totalmente fucked up, atolado na hipocrisia, enquanto eu tenho um relacionamento que me completa e tão importante quanto, completa minha companheira também. Enquanto a gente é feliz, sem se encaixar no padrão, eu vejo um monte de perdidos nos julgando, sem serem felizes, tentando se encaixar em algum modelo.

Eu pretendo falar muito sobre relacionamento e aquele padrão de “infidelidade” encontrado nos TDAH´s, mas por hora o mais importante é, confie no seu instinto, não deixe o mundo te minar a ponto de você achar que não serve pra nada, quando isso acontece, você vai parar em algum sub emprego, se achando um lixo, quando dentro de você existe potencial pra mais. Respeite SEMPRE o próximo, mas exija respeito e procure quem te incentive e aprecie sua maneira peculiar de ver o mundo, não quem destrua.

Arte TDAH

Desde que descobri o transtorno, passei a dar mais atenção a arte e passei a me encontrar em músicas, filmes e seriados. Vou postando algumas coisas comentadas, acho que pros transtornados não precisa explicar, mas como pretendo que pessoas que convivam com os tdah´s leiam o blog também, vou fazer algo mais didático.

Nesse primeiro post vou postar uma música que uma namorada vivia dizendo que tinha a ver comigo. Como era uma música de novela eu já associava que não podia ter nada a ver comigo, mas o fato é que eu nunca reparei na letra, na primeira vez que eu ouvi, boom! Parecia que a música me descrevia.

A música é da Danni Carlos – Coisas que eu sei.

Eu quero ficar perto
De tudo que acho certo
Até o dia em que eu
Mudar de opinião
A minha experiência
Meu pacto com a ciência
Meu conhecimento
É minha distração…

Ficar perto de tudo o que acha certo pode ser encarado com uma certa tendência na personalidade de quem tem o transtorno a defender o que acredita, o que é uma boa fonte de problemas. Até o dia em que mudar de opinião, porque podemos mudar mesmo e não temos dificuldade nisso.

Meu conhecimento é minha distração define bem, pensamos tanto e é isso que gera a nossa distração, não é difícil minha cabeça ir muito longe pensando.

Coisas que eu sei
Eu adivinho
Sem ninguém ter me contado
Coisas que eu sei
O meu rádio relógio
Mostra o tempo errado
Aperte o Play…

Adivinhar sem ninguém ter contado é a intuição característica de tdah, isso vai estar mais detalhado em um post futuro. Meu relógio também parece mostrar o tempo errado, principalmente quando eu hiperfoco, o tempo parece passar muito rápido, o que explica uma tendência a estar sempre atrasado. 

Eu gosto do meu quarto
Do meu desarrumado
Ninguém sabe mexer
Na minha confusão
É o meu ponto de vista
Não aceito turistas
Meu mundo tá fechado
Pra visitação…

A desorganização aparente de um tdah, que pode irritar qualquer pessoa com mais tendência a organização fica bem clara nas quatro primeiras linhas. Eu não diria que tdah é desorganizado, eu só me organizo de uma maneira bem peculiar, lembro da minha mãe reclamar do meu quarto, quando na verdade eu me sentia muito bem nele. As ultimas quatro linhas demonstram um lado que pode se tornar muito ruim pra um tdah que é não querer ouvir ninguém, isso tem a ver as vezes com auto estima reduzida e pode ser assunto pra outro post. 

Coisas que eu sei
O medo mora perto
Das idéias loucas
Coisas que eu sei
Se eu for eu vou assim
Não vou trocar de roupa
É minha lei…

O medo morar perto das ideias loucas é muito significativo e também daria um post exclusivo. A tendência do tdah em pensar diferente e encontrar saídas diferentes pode gerar medo nas pessoas e causar sérios problemas na nossa vida. Não trocar de roupa pode ser visto pelo ponto de lutar pelo o que acredita e pelo ponto de não querer sair da zona de conforto. Eu tenho mania de não passar roupa, essa frase é minha lei caberia como uma luva.

Eu corto os meus dobrados
Acerto os meus pecados
Ninguém pergunta mais
Depois que eu já paguei
Eu vejo o filme em pausas
Eu imagino casas
Depois eu já nem lembro
Do que eu desenhei…

Aqui da pra falar dos “enroscos” que o transtorno causa na nossa vida, mas que de algum jeito a gente sempre resolve. Depois que a gente resolveu as pessoas preferem nem saber como foi.
Você está vendo o filme, da uma pausa porque está imaginando casa, com uma caneta e um papel na mão, quando você olha pro papel não imagina que desenho é aquele, uma cabeça de tdah pode fazer isso, especialmente quando o filme não prende a atenção.

Coisas que eu sei
Não guardo mais agendas
No meu celular
Coisas que eu sei
Eu compro aparelhos
Que eu não sei usar
Eu já comprei…

É uma característica que eu já vi em outros amigos tdah, não anotar o número na agenda, viver de últimas ligações, não anotar o nome. Tenho uns 3 números no meu whatsapp sem o dono e um J pra designar o nome de uma pessoa. A segunda parte fala  da impulsividade de comprar algo que não precisa, aliás a relação de tdah com dinheiro também será um post.

As vezes dá preguiça
Na areia movediça
Quanto mais eu mexo
Mais afundo em mim
Eu moro num cenário
Do lado imaginário
Eu entro e saio sempre
Quando tô a fim…

No primeiro post eu falo sobre isso, as vezes procrastinamos tanta coisa que dá preguiça só de pensar, nossa vida vira uma areia movediça mesmo e quanto mais preguiça, mais você se afunda.
Eu crio mundos paralelos onde eu resolvo todos os meus problemas e as vezes vivo por lá um pouco.

Coisas que eu sei
As noites ficam claras
No raiar do dia
Coisas que eu sei
São coisas que antes
Eu somente não sabia…
Coisas que eu sei

A tendência a ser uma pessoa notívaga é bem explicada aqui, eu canso de ver o dia nascendo, algumas vezes eu fico lá pensando que não vou dormir muito tarde, mas de novo quando olho pela janela o dia já está clareando.
A última parte eu poderia associar com o fato de eu ser auto didata, alguns tdah´s que eu conheço também são.

E ai curtiram? Comentem e vamos debater, se você curtiu mesmo, dê um like e ajude o blog a chegar a outros TDAH´s!

Ser ou não ser?

Essa é a questão uma vez que você descobre o que é o tdah. De um modo simplista eu vejo dois caminhos, enxergar como uma doença e renegar todo e qualquer resquício do transtorno, seja através de remédio, terapia, na raça ou todas as anteriores. É uma maneira de ver as coisas e dependendo do grau de sofrimento que essa doença trouxe na sua vida acho decente buscar um pouco de paz. Acredito que é a maneira mais segura de lidar com o transtorno.

O outro caminho é não aceitar que tdah é uma doença, ou pelo menos não uma doença que te desabilite por completo e que sim tdah tem características muito positivas, como por exemplo a empatia, costumo brincar que em breve a empatia vai ser o novo ouro, dada a tamanha ausência dessa característica em pessoas que não tem o transtorno. Eu acho que esse caminho é mais difícil, te leva a estrada do autoconhecimento e essa não é uma estrada tranquila de se pegar, fatalmente você vai cometer alguns erros, ter que fazer escolhas e nossa cultura não nos ensina como a lidar com riscos, somos ensinado a primeiro pensar em não perder, depois no resto.

Para mim os dois caminhos são válidos, embora tenha ficado clara minha preferência. O principal é fazer uma escolha, vejo muitas pessoas tentando seguir os dois caminhos, elas acreditam que tem uma doença, acreditam que são debilitadas, mas ao mesmo tempo não querem se tratar, não fazem nada pra sair daquela situação. Por isso, mesmo não preferindo a rota mais segura, admiro quem rompe com o estilo de vida característico nosso e abraça o mundão do jeito que ele é.

Eu não acredito que tenho uma doença, com certeza tenho alguns problemas, mas eu lido com eles e tento tirar vantagem das minhas qualidades o máximo possível. Não vou mentir, esse caminho me tira completamente a chance da normalidade, mas e dai? Desde criança eu sempre soube que não teria uma vida normal, eu nunca quis aquela vida padrão, american way of life, classe média, dois filhos e comer macarrão na casa da sogra domingo. Eu até tenho um relacionamento e sou bem feliz com ele, mas parte dessa minha felicidade vem do fato de eu ser aceito como eu sou, com todas as minhas dificuldades.

Deixei por um tempo o mundo jogar na minha cara que eu não servia pra nada, mas não mais. Ok eu tenho problemas, mas quem não tem? Eu lembro da minha infância onde minha família era sempre a errada e todo mundo era o fodão, hoje depois de adulto ainda tentam fazer isso, alguns parentes tentam esconder a sua mediocridade apontando o dedo pros meus defeitos e o que me parece é que isso acontece na vida em geral, em maior ou menor grau e nós em minoria compramos essa ideia de que somos derrotados, vagabundos, preguiçosos e todos os adjetivos que nos dão. Não me entendam mal, podemos ser algumas dessas coisas, eu sou EXTREMAMENTE preguiçoso, procrastinador e desorganizado, mas eu não sou só isso. Sou EXTREMAMENTE criativo, tenho um bom senso muito acima da média, tenho uma empatia gigantesca e várias outras qualidades que ultrapassam muito as das pessoas comuns.

Por isso não quero tomar o caminho de negar quem eu sou, se por um lado eu sou preguiçoso, por outro sou muito bom pra resolver problemas, se não penso pra falar, minha empatia me faz ser um ótimo ouvinte, é tudo parte do pacote. Não é uma escolha fácil, lidar com seus defeitos o tempo todo tentando melhorar é bem difícil, mas acredito que o resultado final me fará ser uma pessoa melhor, muito mais realizada, porque afinal de contas, não quero comer macarrão de domingo na sogra como o ponto alto da minha semana.

Breve resumo

Vou contar um pouco da minha história, de tudo o que eu leio, o que mais me faz sentir melhor é me identificar nas histórias de outras pessoas, então espero poder proporcionar o mesmo alívio .

Sou o mais velho de 3 filhos, meus pais apresentam vários dos sintomas de tdah, o que definiu minha vida, tanto para as coisas boas, como para as ruins. Minha infância até os 7 anos trouxe o melhor de uma vida com tdah´s, muita diversão, altas festas de aniversário, viagens muito divertidas, gente em casa o tempo todo e felicidade a maior parte do tempo, aí veio o pior do tdah nos meus pais, falta de dinheiro, excesso de bebida, casos do meu pai, depressão da minha mãe, casamento desfeito, mais depressão e um período de uns 6 anos de uma turbulência que marcou muito negativamente minha infância, tanto eu quantos meus irmãos passamos por períodos muito ruins, provenientes da falta de grana e da falta de estabilidade emocional e a falta de responsabilidade típica de um tdah, (o que me faz questionar se eu tenho condições de ser pai) que definiram nossa vida adulta em extremos de qualidades e defeitos, somos muito bons pra algumas coisas e muito ruins pra outras.

Aos 13 anos eu conheci o esporte e minha mãe já separada do meu pai e trabalhando, conseguiu nos fornecer alguma estabilidade emocional e financeira por mais 5 anos, que por coincidência foi o tempo que me dediquei ao esporte. Uma das alternativas que me parecem consenso para o transtorno é a atividade esportiva, durante esses 5 anos em que me dediquei os sintomas de tdah eram bem menores e minhas crises existenciais quase não existiam, mas por outro lado, minha mãe nunca me incentivou a pensar alto e qualquer demonstração disso era severamente desencorajada. Foi um período que nada de ruim aconteceu, mas nada de bom também.

Veio a maioridade, um namoro, minha mãe mudou de cidade e fui morar com meu pai e kaboom! Toda a tranquilidade foi ladeira abaixo, não me entendia com meu pai, eu não tinha a menor estrutura pra viver a vida adulta, ao mesmo tempo sair da redoma que minha mãe tinha criado não foi fácil e fiquei a deriva até os 30 anos, quando descobri o livro da Ana Beatriz, o mentes inquietas. De lá pra cá foram 3 anos de um aprendizado intenso, que eu pretendo dividir aqui no blog.

Espero que da mesma maneira que eu encontrei ajuda e insights em outros blogs, esse espaço sirva ao propósito de entregar alguma luz a quem procura.

Olá mundo

Começo esse blog da maneira mais tdah possível, bebendo mais do que eu deveria, assistindo seriado e conversando com um amigo em algum IM, depois de ter enrolado aproximadamente uma semana pra escrever, procrastinação!

Depois de ler muito o blog Hein!, me veio essa vontade de dividir com o mundo, ou meia duzia de pessoas, sobre minhas experiências, por vezes surreais, sendo um TDAH.

A ideia é ajudar quem passa pelo mesmo problema e eventualmente com quem convive com alguém que tem esse diferencial, por mais desacreditado que eu seja, algumas pessoas acham de alguma maneira eu escrevo bem, eu mesmo não acredito nisso, mas eu gosto de espalhar minhas ideias malucas.

Tem muita coisa pra se falar sobre tdah, é mesmo uma doença? Ritalina é a solução? Terapia? Eu ainda não tenho essas respostas, mas espero que ao longo desse blog eu descubra isso junto com quem estiver lendo e consiga colocar um foco na minha vida.

No momento eu estou vivendo aquele inferno tdahzistico de ter um milhão de ideias na cabeça e não ter controle pra decidir o que é prioridade e o que é besteira, todas as ideias parecem igualmente sedutoras e a vontade é de ter uma varinha mágica e tirar de dentro todas essas coisas, a ideia de realizar pelo menos alguma coisa me deixa um pouco aliviado e escrever nesse momento é como esvaziar um pouco a minha mente. Acho que quando a gente está com a mente muito cheia é necessário esvaziar um pouco, então acho que a primeira dica é, comece a esvaziar sua mente pelo mais fácil primeiro.

Procrastinamos tanta coisa que as vezes a cabeça entra em parafuso, é visitar alguém que não vemos faz tempo, é começar a organizar a vida financeira, parar com algum vício, começar a escrever, terminar um relacionamento, começar um relacionamento, começar a desenhar, tirar carteira de motorista, tirar um documento, enviar algo pelo correio, atualizar seu currículo, terminar a faculdade, começar um curso, a lista é infinita, imagine tudo isso dentro da sua cabeça durante anos? A chance de você entrar em parafuso é gigante.

Comece pela coisa mais simples que esteja entupindo sua cabeça. Pra mim nesse momento a mais simples era escrever esse texto, eu estou fazendo isso sem sair muito da minha zona de conforto, estou no sofá, com ar condicionado nesse calor africano, bebendo, era a coisa mais simples a se fazer e mesmo assim eu demorei bastante, mas quando vc conclui a sensação de alívio é bem grande, é quase como fazer xixi quando você está apertado. Aliás talvez a gente acabe ficando viciado nessa sensação, de alívio e deixe acumular sempre as coisas pra sentir essa sensação, mas isso já é divagação demais e outro dia eu escrevo sobre isso.

Por hora, mantenha sua vida simples, resolva as pequenas coisas.